O Glúten Nosso de Cada Dia

O pão é bíblico. Símbolo do próprio alimento, de prosperidade e, para muitos, até de comunhão com o divino.

No entanto, milhões de pessoas em todo o mundo sofrem pela incapacidade de digerir este tipo de alimento, ou ainda de qualquer tipo de alimento que seja derivado do trigo, do centeio ou da cevada, em especial pela presença de uma certa proteína altamente alergênica denominada Glúten.

A sensibilidade ao glúten é variável de acordo com cada indivíduo, e existe num amplo espectro de possibilidades e sintomas. De um lado temos os indivíduos celíacos, que são incapazes de processar sequer infinitésimas partículas de glúten que ficaram como resíduo em um utensílio que foi usado para preparar um prato com glúten. Do outro lado, temos os indivíduos que não tem qualquer tipo de problema com o glúten. E entre um e outro extremo, uma enorme quantia de indivíduos sofrendo mais ou menos com sintomas diversos de intolerância a esta substância.

O diagnóstico da intolerância ao glúten não é muito óbvio, e é relativamente comum que uma pessoa passe a vida inteira sofrendo com sintomas desagradáveis diversos sem relacionar os mesmos ao consumo dos derivados cereais que contém o glúten.

A lista de sintomas conhecidos e associados à intolerância ao glúten é grande. Vejamos alguns dos mais significativos:

  • Crônica perda ou ganho de peso
  • Deficiências nutricionais resultantes de má absorção (ex: deficiência de ferro)
  • Problemas gastrointestinais (inchaço abdominal, dor, gases, constipação, diarreia)
  • Gordura nas fezes (devido à má digestão)
  • Dores nas articulações
  • Depressão
  • Eczema e dermatites diversas (descamação nas mãos e dedos, por exemplo)
  • Enxaqueca
  • Exaustão
  • Irritabilidade e mudanças comportamentais
  • Infertilidade, irregularidade do ciclo menstrual, aborto espontâneo
  • Cãibras, coceiras e perda de sensibilidade na pele
  • Crescimento reduzido (em bebês e crianças)
  • Declínio na saúde dental

Como se vê, a lista é muito extensa e vai da psoríase à osteoporose, da infertilidade à obesidade. Assim sendo, fique atento: pode ser que o seu pãozinho de cada dia esteja realmente subtraindo muito de sua qualidade de vida.

 

 

Um dos maiores problemas com a intolerância ao glúten é sua natureza insidiosa. Cerca de 75% das pessoas intolerantes não demonstram qualquer sintoma aparente de algo que com o tempo e o consumo frequente pode vir a se tornar uma doença autoimune, um dano permanente no sistema nervoso e até um câncer intestinal. Algumas destas condições desenvolvem-se silenciosamente sem sintomas iniciais de fácil identificação.

A recomendação é que cada indivíduo busque o quanto antes saber se o seu corpo tolera bem ou não esta substância com o intuito de evitar sofrimento desnecessário.

Existem hoje diversos testes que auxiliam no diagnóstico desta inadequação digestiva, tais como a biópsia do intestino. Entretanto, a chance estimada de um médico tradicional relacionar um problema de saúde qualquer com intolerância ao glúten é de apenas 2% (!!). A absoluta maioria dos indivíduos realizou o simples teste do autodiagnostico, que trata de eliminar o glúten por um período de duas a seis semanas e observar se os sintomas recorrentes desaparecem por si.

Os bons profissionais de saúde sempre irão lhe recomendar a exclusão temporária da dieta de cada um dos quatro principais alimentos alergênicos (um de cada vez), de acordo com a lista compilada pela Mayo Clinic (USA), na ordem de maior frequência de incidentes:

1 – Glúten (em especial na forma de trigo, mas também na forma de centeio, cevada e, em casos extremos, aveia)

2 – Laticínios de vaca (especialmente os comerciais pasteurizados)

3 – Soja, especialmente os produtos que não foram pré-digeridos pela fermentação, como o misso, o tempeh, o nattô e o shoyu, estes de fácil digestão. Eliminar carne de soja, leite de soja e todo produto que seja acrescido de extrato ou farinha de soja, além de tofu e o próprio grão cozido.

4 – Ovos, especialmente os ovos de granja, provenientes de galinhas criadas com ração, antibióticos e hormônios.

Realizando em si mesmo essa importante experiência é possível identificar com mais clareza o quanto determinado alimento está afetando sua qualidade de vida… ou não.

No caso do glúten, o alimento que possui a maior concentração deste é de fato o trigo moderno. Sim, o onipresente trigo é o mais problemático de todos os cereais. Bem diferente das variedades ancestrais, como o Einkorn (o grão bíblico), o Kamut ou o Espelta, o altamente hibridizado trigo utilizado em 99% das preparações (como pães, biscoitos, massas e etc.) possui 3 elementos inadequados para a saúde humana, os quais conheceremos a seguir.

 

 

 

Dissecando o trigo moderno

O Einkorn, trigo original do Crescente Fértil (onde a própria agricultura teve início), foi aquele servido por Abraão aos seus convidados. O Einkorn é diferente em diversos aspectos. Seus grãos são menores e mais estreitos do que o trigo moderno. O teor de glúten chega a ser quatro vezes menor, e de um tipo diferente – é um tipo de glúten que possui 14 cromossomos, contra 28 do trigo moderno. Com o Einkorn você consegue criar um pão crocante, mas não uma massa de pizza molenga e maleável, cookies ou mesmo o pão francês.

O glúten, (do latim “glúten”, significa “cola”) é muito desejável para a culinária moderna pelo fato de que ele, como uma boa cola, aglutina a massa. É mesmo uma cola – misturando farinha de trigo com água você pode fechar envelopes com esta cola!

O trigo tão popular da era moderna, também conhecido por trigo-anão, é um produto de manipulação genética e hibridização, resultado de gerações e gerações de cruzamentos e seleção de sementes em busca do máximo teor de amido e glúten, os quais são os elementos essenciais da estética e textura normalmente almejados nos derivados. É um tipo de trigo resistente e de alta produtividade na colheita.

O homem que desenvolveu esta variedade em meados do século XX, o cientista norte americano Norman Borlaug, foi laureado com o Prêmio Nobel e prometeu alimentar milhões de famintos ao redor do globo. E de fato o fez, assim como nutriu em milhões a obesidade e a doença. A doença celíaca é hoje 4 vezes mais comum do que há cinquenta anos atrás, e a principal razão é a mudança de qualidade do trigo, que ocorreu justamente neste período.

A primeira diferença principal deste trigo-anão é o elevado teor de um tipo de amido concentrado chamado amilopectina A. É graças a ele que obtemos pães tão fofos. Mas é um amido tão glicêmico que bastam duas fatias de pão integral para elevar o teor de açúcar no sangue em maior medida do que o fariam duas colheres das de sopa cheias de açúcar refinado.

Perceba que não há uma diferença significativa entre a farinha de trigo integral ou refinada (a famosa farinha branca) no quesito glicemia. Em pessoas com diabetes, tanto o pão branco quanto o integral elevam a glicemia sanguínea em 70 a 120 mg/dl sobre os níveis iniciais. É notório que alimentos com alto índice glicêmico resultam em estocagem de gordura na barriga ou nos quadris, na ativação de mecanismos inflamatórios no organismo e na criação da esteatose hepática, ou degeneração gordurosa do fígado. Excesso de açúcar no sangue é o principal fator que resulta em diabetes tipo 2 e em obesidade.

 

Comparação de índice glicêmico

(teor de elevação de glicose sanguínea após a ingestão do alimento)

Uma das manobras enganosas mais efetivas e rentáveis criadas pela indústria alimentícia é a de adicionar pequenas porções de trigo integral (ou mesmo apenas do farelo do trigo) para criar um aspecto virtuoso em produtos altamente processados, elaborados com a temível e inflamatória gordura vegetal, com açúcar adicionado e outros elementos nocivos. Quem não conhece um pouco melhor sobre nutrição e saúde (e aqui me refiro a 95% da população, no mínimo) é levado acreditar que está ingerindo algo extremamente saudável ao comer bolachas “plastificadas”, tingidas de marrom por traços de trigo integral.

Outro fator que merece atenção em relação ao trigo-anão é a presença em sua composição de uma espécie de “super glúten”, uma variedade mais eficaz em causar inflamações em tecidos que tenham pré-disposição do que o glúten presente nos cereais não-híbridos. Em comparação com o Einkorn, o trigo moderno possui pelo menos o dobro de quantidade e variedade de moléculas de glúten.

A doença celíaca ocorre em indivíduos que tem uma predisposição genética conhecida como HLA DQ2 ou DQ8, a qual ocorre em cerca de 30% da população, sendo que 99% das pessoas que sofrem com intolerância severa ao glúten e ao trigo não são diagnosticadas como tal. Estamos falando de um problema que afeta muita gente que passa a vida sofrendo com sintomas que não são atribuídos à real causa. É, sem dúvida, algo a se considerar.

Quando ingerimos repetidamente um alimento que o corpo não consegue processar adequadamente, o sistema imunológico o trata como um invasor, e luta contra ele. Quando isso ocorre de maneira repetida e frequente, o tubo intestinal fica cronicamente inflamado, o que danifica a mucosa e faz com que esta perca a camada protetora que impede que bactérias invasoras e moléculas de alimentos não digeridos penetrem na corrente sanguínea e se espalhem pelo organismo inteiro, o que conduz a uma inflamação sistêmica pelo fato de que o sistema imunológico passa a lutar contra estas “moléculas proteicas invasoras”.

A inflamação sistêmica é o início de muitas e variadas doenças, tais como doenças do coração, demência, autismo, câncer e muitas outras. É realmente de se espantar que a medicina convencional tenha tanta resistência em realizar a associação entre alimentação e saúde.

O trigo moderno não contém apenas o amido concentrado e o “super glúten” – o que faz dele algo altamente engordativo e inflamatório – mas ele também contém uma droga poderosa. Sim, uma droga que vicia, aumenta o apetite e desequilibra a mente.

Quando processado pela digestão, as proteínas do trigo são convertidas em “polipeptídios” chamados “exorfinas”. Estes são como a endorfina produzida após uma atividade física, e se ligam aos receptores de opióides existentes no cérebro, dando um “barato”. O nome deste tipo de substância do trigo é “gluteomorfina” – ou seja, um tipo de morfina.

Esse tipo de substância está intimamente relacionado a causa de problemas tais como esquizofrenia e autismo, mas também a vícios comportamentais como apetite desenfreado e distúrbios alimentares diversos. Ninguém tem acessos descontrolados de vontade de comer brócolis, mas é muito comum um surto de desejo de comer cookies ou bolo. Resumindo, o trigo é também um viciante estimulante de apetite.

 

Substituindo o Glúten no Dia a Dia

Certamente que evitar o glúten não é uma tarefa das mais simples para quem se alimenta daquilo que é considerado o comum. Em nossa cultura, muitas vezes se come o trigo em cada uma das três refeições diárias (pãozinho e torradas no desjejum, macarrão no almoço, pizza ou sopa de macarrão no jantar…), além de bolachas e biscoitos como snacks ao longo do dia.

Poucos são os que não salivam ao sentir o cheiro de um pão quentinho na padaria, ou ao pensar em sua pizza favorita…

O trigo em si, como demonstrado anteriormente, é um alimento que vicia. Para quem é habituado a se alimentar dele, deixar de comer trigo exige uma determinação que se assemelha ao deixar de fumar cigarros. Já que não é uma tarefa das mais fáceis, é importante simplificar este esforço conhecendo e disponibilizando opções para o dia a dia.

Segue uma lista de substitutos viáveis para algumas das opções mais comuns de ingestão de trigo.

– Pão Francês ou de forma (integral ou não): Experimente substituir por tapioca, mandioca, inhame ou batata doce cozidos, por banana da terra cozida ou por algum pão sem glúten de boa qualidade. Muita atenção ao escolher o seu pão sem glúten, pois a maioria é feito com ingredientes tão inadequados quanto o próprio trigo: farinha e/ou óleo de soja, óleo de milho transgênico, clara de ovo de granja… por exemplo. É possível criar bons pães sem glúten, embora estes ainda não sejam os mais comuns no mercado. Tive recentemente a oportunidade de experimentar um pão italiano sem glúten e sem ingredientes duvidosos praticamente idêntico ao convencional… ou seja, é possível.

– Crackers e bolachas (integrais ou não): Já são disponíveis no Brasil crackers de mandioca realmente deliciosos, feitos apenas com mandioca, óleo de palma (ideal para ser aquecido) e sal. O site da empresa é www.chicogeraes.com.br, e o mesmo pode ser encontrado em diversas lojas especializadas. São crocantes e leves, eliminam até mesmo a saudade dos cream crackers e semelhantes, sem qualquer traço da gordura vegetal hidrogenada que quase sempre está presente nestas bolachas. Dica: compre o pacote de “massa de lasanha”, que possui duas embalagens grandes de crackers.

– Cookies sem glúten: Existem algumas marcas que oferecem opções razoáveis, mas quase sempre possuem alto índice glicêmico e ingredientes indesejáveis. O ideal é se acostumar a deixar de gostar de alimentos doces processados, substituindo a princípio por cookies caseiros feitos de trigo sarraceno ou aveia, num segundo momento por frutas frescas até chegar no ponto ideal de ter uma alimentação com o mínimo de doces de qualquer tipo. Uma dieta com baixo teor de açúcar, de qualquer tipo, é a mais recomendada para a maioria dos seres humanos.

– Massas diversas: Já podemos encontrar no mercado diversas opções de massas nos mais variados formatos que são elaboradas com diversos cereais. As mais adequadas são sem dúvida as elaboradas com quinoa e amaranto, ou puro trigo sarraceno. Estes são os cereais mais adequados. Num distante segundo lugar ficam as massas exclusivamente elaboradas de arroz, que embora não sejam alergênicas são pobres em nutrientes e glicêmicas demais. Num terceiro e distante lugar a massa feita de milho, muito glicêmica e quase sempre de origem transgênica. Como quase sempre é verdade em relação a tudo, as opções mais caras (massas de quinoa) são as que oferecem melhor qualidade e valor.

– Pizza: Ainda não me deparei com uma massa de pizza sem glúten pronta para comprar que transmitisse a mesma experiência agradável da pizza convencional e que não tivesse ingredientes indesejáveis. Sendo assim, incluí abaixo uma receita de massa de pizza fácil de preparar e de resultado muito interessante, com as bordas crocantes e douradas e flexível na parte central. Não muito fina, nem muito grossa, te dá a possibilidade de segurar nas mãos uma fatia e morder.

 

 

MASSA DE PIZZA SEM GLÚTEN

Esta receita requer alguma dedicação e pesquisa para obter alguns dos ingredientes, mas o resultado compensa.

Ingredientes (rende 2 pizzas – multiplique as quantidades e congele se desejar):

– 2 xícaras de polvilho doce ou azedo, ou misturados em partes iguais.

– 1 xícara de farinha de arroz.

– 1/2 xícara de farinha de arroz integral.

– 1/2 xícara de farinha de painço (você pode comprar o painço descascado e moer).
– 2 colheres das de chá de bicarbonato de sódio.

– 2 colheres de chá de goma xantana, ou CMC em pó (encontra-se em casas especializadas de produtos naturais ou empórios).

– 1 colher de chá de sal marinho

– 1 e 1/2 xícara de caldo de cana amornado

– 1 sachê de fermento biológico

– 1/4 de xícara de um bom azeite de oliva

– 1/4 de colher de chá de vinagre de maçã suave

– 1/4 de xícara de clara de ovo da roça (orgânico) batida OU alguma das duas opções de substituição de ovos em receitas (abaixo):

Substituto de semente de linhaça para um ovo

  • Moer as sementes no liquidificador e guardá-las no freezer.
  • No preparo usar uma (1) colher de sopa de sementes de linhaça dourada moídas + três (3) colheres de sopa de água.
  • Misturar, deixar em uma tigela pequena descansando por 1 a 2 minutos. (Torna-se muito espessa se ficar mais tempo).

Em algumas receitas abundantes em líquidos, as sementes de linhaça moídas podem ser adicionadas diretamente aos ingredientes secos.

Substituto da clara de ovo em receitas

  • Dissolver uma (1) xícara de polvilho azedo em uma tigela com água.
  • Coloque na panela e mexa, até dar o ponto de clara de ovo.

 

Modo de Preparo:

1 – Unte duas fôrmas de 30cm com manteiga ou azeite, e polvilhe com polvilho (rs!). Reserve.

2 – Numa larga tigela, misture as farinhas e ingredientes secos. Dissolva o fermento biológico em uma xícara de água morna com uma pitada de açúcar. Misture o fermento aos ingredientes secos.

3 – Adicione os óleos, ovos e vinagre.

4 – Sove a massa até que esteja macia e aderente. A textura da massa não é muito firme, fica mais para massa de bolo do que de massa de pão.

5 – Utilizando uma espátula de silicone, divida a massa ao meio e despeje cada metade nas fôrmas preparadas. Espalhe a massa com mãos limpas e molhadas, criando um disco fino e de espessura bem distribuída, com bordas suavemente levantadas. Você precisará umedecer suas mãos mais de uma vez para fazer isto. Tenha calma, você será recompensado com uma adorável massa de pizza.

6 – Deixe a massa da pizza descansar e crescer em local morno por mais ou menos 15 minutos.

7 – Pré-aqueça o forno a 200 graus, e depois asse por 10 minutos até dourar.

8 – Remova do forno, desligue o forno e ligue o grill (se houver). Pincele a massa com um bom azeite, tomates cereja esmagados, sal marinho e ervas frescas. Utilize, se quiser, um bom queijo de cabra, de amêndoas, ou do que preferir. Gratine por 4 ou 5 minutos e pronto, delicie-se com sua lindíssima pizza sem trigo!

 

Mais Observações

Alguns afirmam que o trigo, quando germinado, perde o seu glúten e deixa de ter malefícios. Isto simplesmente não é verdade. Embora o teor de glúten seja reduzido, é em pequena proporção. Se você não tolera o trigo, germinar o mesmo não irá resolver a questão.

Isso não significa que não seja benéfico germinar os cereais diversos – uma prática que de fato facilita a digestão, elimina substâncias indesejáveis e amplifica a qualidade do alimento em geral. Mas não é suficiente para eliminar o glúten.

Outra observação importante é que embora tenham sido apresentadas algumas ideias e alternativas para substituir o trigo, mesmo estas alternativas devem ser ingeridas dentro de um equilíbrio, sem excessos.

O ideal é ter consciência de que a meta é ter uma ingestão reduzida de pães, massas e biscoitos de qualquer tipo. Seja de trigo ou de qualquer outra origem, é sempre bom estar atento para ter uma alimentação com ingestão moderada de carboidratos. Lembre-se de que nos milhares de anos que antecederam a descoberta da agricultura o organismo humano lapidou seu metabolismo ingerindo uma alimentação com muito pouco carboidrato – e até hoje é assim que o metabolismo encontra as suas condições ideais para funcionamento.

Os grandes especialistas em nutrição recomendam obter a maior parte das calorias diárias de fontes de gordura saudável, e apenas entre 30% e 20% de calorias idealmente seriam obtidas de carboidratos – variando, naturalmente, do perfil de atividade física individual. Por incrível que pareça, o exato inverso da típica pirâmide nutricional tradicional… E um excelente tópico para ser detalhado em um outro artigo.

Dessa forma, o ideal mesmo é ir cortando seus laços de dependência com uma dieta com excesso de alimentos ricos em carboidratos – açúcar, pães, bolos, biscoitos, massas, batatas… E tudo aquilo que vira açúcar no sangue. Esta é uma das diretrizes básicas de uma alimentação realmente em harmonia com a natureza da biologia corporal. Excesso de carboidratos na dieta é razão do desenvolvimento de uma lista enorme de desequilíbrios para a saúde, justamente por não ser o combustível natural para o corpo.

Mesmo assim, sabemos que toda a mudança duradoura acontece de forma gradual. O ideal é iniciar o caminho de evolução de hábitos alimentares substituindo os alimentos mais prejudiciais por alternativas melhores, como as demonstradas acima, e, aos poucos, educando-se a gostar daquilo que faz bem. E aprender, se ainda não o fez, que é perfeitamente possível ter uma vida cheia de alegria e prazer mesmo sem o trigo… e sem os seus muitos inconvenientes!

49 replies on “O Glúten Nosso de Cada Dia

  • Adriana

    Dia 16/03, recebi diagnóstico de resistência a insulina. Desde então, retirei todo tipo de açúcar e carboidrato (glúten). Ainda estou procurando uma nutricionista… já marquei cardiologista…aff…
    De carboidrato, só deixei a batata doce, e como uma maçã no lanche, porque tenho medo de comer outras frutas, nem sei se devia estar comendo a maçã… Estou ficando sem opções pra comer… almoço e jantar, por enquanto, até que está tranquilo… mas não sei o que posso beliscar… lanchar…
    Sábado fez uma semana que tirei isso da minha vida, e estou me sentindo melhor… dormindo melhor, menos cansada. Andava me arrastando, e agora já estou voltando a ter ânimo. Espero que logo eu possa voltar a ter minha insulina em níveis normais, e seguir com a Low carb, mas sem tanta paranóia.

  • Cristina

    Ola Flavio, pratico alimentação saudável e compartilho suas idéias. Porém meu grande hobby é fazer pães de fermentação natural. Esse processo minimiza a ação maléfica do gluten?

  • filipe

    Olá! Minha dúvida é com o glúten da aveia. Apesar de não ser celíaco, quando removi todo o glúten da dieta, meu intestino e saúde melhorou de forma extraordinária. Ma vi o Flávio Passsos incluindo Aveia em suas receitas, será que eu posso comoer? Aveia é algo saudável? Não tem glúten? Qual é a postura dele diante da aveia? Existem tipos de aveia?

  • Andreia

    Olá, Flávio. A maioria dos autores funcionais do trigo também alertam para o perigo das doenças autoimunes causadas pelas lectinas (trigo/cereais/grãos/feijões/amendoim). Também alertam para o aumento da produção de zonulina. Como esses artigos são em inglês, seria bom que você complementasse seu post para que tenhamos uma fonte confiável em português para leitura.

  • Rosemeire Damasceno Ferreira Costa

    Nada facil. Requer disciplina e as farinhas nao são faceis de encontrar. Preciso de ajuda nesse sentido. Ja cortei o glúten, mas meu intistino continua inflamado. Quem puder me ajudar eu agradeço de coração.

  • Vanessa Ary

    Excelente artigo, Flávio! Muito esclarecedor. Só senti falta de uma informação que acho que as pessoas precisam entender também. A questão da fermentação natural. O verdadeiro pão (com o verdadeiro trigo) era fermentado com o levain (fermento feito com a própria farinha e água, que hj famílias italianas e francesas passam de geração em geração para produzir seus paes). Usando o ‘levain’ em uma boa farinha preferencialmente orgânica e com trigo original ou com centeio, sendo fermentado por 12 a 24h, o glúten é praticamente todo “quebrado”, ou seja, ele é desintegrado e fermenta fora e não dentro de nós, reduzindo ou eliminando praticamente os efeitos colaterais. Esta informação é essencial pois hoje esta crescendo o número de padarias artesanais que utilizam esta fermentação e inclusive as pizzarias mais tradicionais e antigas fermentam suas massas. Procurem estas 😉

  • Camila

    Oi querido Flavio, obrigada por este trabalho tão lindo que vc nos oferece.
    Gostaria que vc falasse mais sobre outras fontes de gordura, além do abacate e do óleo de coco já muito detalhadas por vc. Eu consumo bastante tahine e oleaginosas. O tahine, nas variações integral (preto) e descascado. Ele é uma gordura boa? Qual a quantidade ideal para consumo diário? Com respeito às oleaginosas, tenho dúvida também quanto a quantidade. Um punhado por dia é de fato o indicado ou isso é um mito?
    Vc citou brevemente os germinados e também tenho curiosidade de como eles poderiam se inserir na alimentação que vc sugere, se eles são benéficos para a saúde ou não.
    Obrigada!

  • Luiza

    Gosto muito de ler seus artigos. Parabéns! Agora gostaria se possível que você me respondesse se a massa de milho que costumamos fazer o cuzcuz faz mal . Adoro cuzcuz , mas estou percebendo que não está me fazendo muito bem, assim como outras massas.

  • Gloria Elizabeth Moraes

    Flavio! Viajei na massa da pizza!😊minha avó fazia-a c glúten.mas acho q vale a pena tentar fazer Está!😊e ,como o assistia na TV,senti sua presença na frase que vc fala: “tenha calma: vc será RECOMPENSADO com uma ADORÁVEL MASSA DE PIZZA”😋GRATA POR FAZER O COMER TÃO AGRADÁVEL! MERCI.

  • Daniela

    Flávio, amei o artigo, descobri porque todos na minha casa sofrem com rinite e sinusite! Essa maldita farinha que não consigo fazer em meus filhos largarem ! Difícil! Mas nunca é tarde pra começar! Perfeito!

  • Francisco Carlos Loss

    Boa noite.
    Sofri muitos anos com inflamação no intestino incurável. Gastei muito dinheiro. Muitos médicos. Descobri a cura sozinho de maneira bem simples.
    Coloquei em prática o uso de canabidiol. Virei já na primeira vez que usei. Me escreva que ensino como encontrar.
    Facebook. Francisco Carlos Loss.

  • Ana Machado

    Flávio,
    Você fala sobre fazer um teste deixando os laticínios de lado. Eu já fiz 2 testes que diziam que eu tenho intolerância à lactose. Não tomo mais leite de vaca, mas como iogurtes integrais que têm na composição somente o leite com fermento lácteo/lactobacilos e queijo suíço/parmesão, pois li que as bactérias comem o açúcar (lactose). Mesmo assim existe algum estudo dizendo que os queijos maturados e iogurtes naturais (sem conservante nenhum, sem açúcar adicionado e com lactobacilos) são ruins para a saúde?

  • Noemi Boer

    Olá Flavio,
    Gostei muito do texto e da receita de massa de pizza sem glúten.
    Mas eu tenho um dúvida e gostaria de saber seu entendimento. Os restaurantes vegetarianos, servem “bife” de glúten em substituição ao bife de carne ou outras receitas com glúten . Isso parece ser muito contraditório com os princípios da alimentação saudável , natural, preconizada por essa corrente alimentar. O que vc pode nos dizer a respeito disso?
    Agradeço sua atenção. Abç.
    Noemi

  • Cristina

    Comprei trigo sarraceno tanto em farinha como em grão, na minha casa tem diabético tipo 1 e celíaco, porém não encontrei receita gostosa com essa farinha, q tem o gosto forte. E o que fazer com o grão desse trigo? Coloco no liquidificador e trituro ou da para fazer outras coisas, enfim , como consumi-lo?

  • genesmiro cordeiro

    Não tenho problema com peso mas tenho 1,74 de altura meu peso 67 quilos tenho acido urico, um pouco no limite maximo, entao, gostaria de saber como fazer uma alimentação que posso baixar ele p/ 4 ou 5 no maximo!!

  • Fátima Estef

    Nossa Flávio, estou impactada com essas informações!
    Sempre fui magra. Passei a maior parte da minha vida pesando 60kg, e como tenho 1,67m, não havia tido problemas com meu peso. Tive meu primeiro filho aos 24 anos e continuei magra, mas de uns 13 ou 14 anos para cá comecei a engordar e à cerca 6 anos fui diagnosticada com compulsão alimentar.
    Ao ler este artigo, pude compreender a origem da minha compulsão. Não como brócolis ou alface compulsivamente, mas qualquer alimento derivado do trigo. ..desperta o dragão esfomeado, que habita o meu estômago!
    Vou apossar-me do conhecimento que você compartilhou conosco e iniciar minha longa viagem de volta!
    Muito obrigada!

  • Manoela

    Flávio, excelente artigo!
    Poderia me informar sobre o pão de fermentação natural? Ele realmente não é tão prejudicial? Não sei onde posso encontrar dados/fatos sobre o assunto.
    Obrigada

  • Rogerio Weis Naressi

    Muito obrigado pelas informações, Flávio! Gostaria de saber sua opinião sobre o pão fermentado, com fermento silvestre, como o “sourdough”. Faz um mês que tenho feito o meu próprio pão dessa forma, deixando-o fermentar por 15-60h. Há informações na internet que esse tipo de pão contém significativamente menos glúten que o pão normal, e é mais facilmente digerido. No entanto, não achei nada muito científico e gostaria de saber sua opinião a respeito. Abraços!

  • Élida

    Flávio, parabéns! Você, transmitem uma segurança que motiva, até os mais incrédulos sobre a capacidade de deixar o glúten (como eu), estimulados. Vou fazer a experiência bem como a do jejum intermitente. Conheci vocês por meio da HighStakesWeek e estou realmente decidida a agir! Sempre estive pronta para uma boa alimentação, mas nunca disponível para abandonar o pão e meus sintomas, principalmente a dificuldade de perder peso, estão muito próximos aos citados.
    Gostaria, no entanto, de ouvir um pouco sobre como aplicar isso às crianças. Li que você tem uma filha de 6 anos, mas que certamente, cresceu nesse mundo fascinante da boa alimentação. Não posso dizer o mesmo. Tenho uma filha de 9 que “gosta de comer” aquilo que não é ideal e, mesmo controlando muito ainda deixo que viva nesse mundo das comidas mais “confortáveis”…o que fazer, por exemplo, com o lanche da escola?!
    Muita gratidão por tudo que tem me ajudado a descobri!

    • claudia

      Eu tenho o mesmo problema lá em casa. Hoje enviei um e-mail solicitando receitas para estimular a alimentação das crianças. Outra dúvida, lá em casa amamos a pipoca!!!! Agora li sobre o milho e fiquei arrasada!! O milho de pipoca deve ser evitado então?

    • Vanessa Ary

      Olá e lida! Me intrometendo no comentário, o que eu acredito é em educação nutricional. E não proibições e radicalismos. Uma criança que passa a vivênciar a ” mão na fruta ” a “mão na verdura”, cozinhar e brincar com formas de se alimentar e se reconectar com a essência, natureza, se empodera de suas decisões. E aí nem um lanche de amigo ou festa de aniversário ou sogra vão botar a perder toda sua consciência sobre sua saúde e organismo 🙂 Dou aula de culinária e educação nutricional para crianças e já vi muito isso acontecer. É fascinante!

  • Victor Carrijo Tiago

    Flávio Passos tenho Doença de Crohn e devido a inflamação e um estreitamento que acomete 60 centímetros do intestino delgado até o íleo terminal vejo extremamente necessário a retirada do glúten. Existe um alimentação que possa reverter este quadro de inflamação da mucosa intestinal diminuindo o estreitamento?

    • Francisco Carlos Loss

      Boa noite.
      Sofri muitos anos com inflamação no intestino incurável. Gastei muito dinheiro. Muitos médicos. Descobri a cura sozinho de maneira bem simples.
      Coloquei em prática o uso de canabidiol. Virei já na primeira vez que usei. Me escreva que ensino como encontrar.
      Facebook. Francisco Carlos Loss.

    • CAMILA B C MARTINS

      Olá, li um livro de um médico americano que conseguiu curar a Doença de Crohn em 3 meses com uma dieta parecida com a sugerida pelo Flávio Passos, mas que também considera outros fatores que ele considera muito importantes, como a eliminação do consumo de lectinas de vegetais e frutas (presentes nos cereais, leguminosas e dos vegetais da família do tomate – Solanaceae, e em frutas colhidas verdes com exceção da banana verde) e os que acabam na carne, leite e ovos de animais se alimentam de cerais, como milho e soja.
      O médico chama-se Dr. Steven Gundry e o livro “The Plant Paradox”. Achei muito interessante. Ele tratou diversos tipos de doenças, principalmente as autoimunes com essa dieta. Vale a pena conferir.

    • Vanessa Ary

      Ola victor! Li o artigo (muito bom por sinal) e vendo seu comentário achei que seria bom dizer que além da questão inflamatória do glúteo, as vezes antes dela, existe um intestino debilitado com disbiose, uma alteração da micróbiota ( flora intestinal ) e mucosa danificada) provavelmente com a presença de microorganismos patogênicos cios, o que pode promover e facilitar as intolerâncias de qualquer espécie. O que pode reduzir está inflamação é sem dúvida tirar os alimentos citados como alérgicos por um período ou excluídos …mas ao mesmo tempo desintoxicar o organismo como um todo e após, reequilibrar a microbiota e a mucosa para reverter as inflamações. Sim é possível!

  • Rosangela

    Muito bom o que li aqui, aos poucos me vi com intolerância a lactose e glúten e recente alérgica ao ovo. Tenho me virado com os substitutos, mas acabo nos carboidratos. O que sugere para um café da manhã menos calórico?

  • Renan Mendes

    Parabéns pela qualidade da informação. Eu retirei o glúten há 6 semanas e a psoríase que insistia em morar no meu couro cabeludo desapareceu. Doença essa que TODOS os CINCO demartologistas que visitei afirmaram não ter cura.

    Um abraço

    Renan Mendes

  • wilson abdo abugeber

    O grão do trigo germinado mantém o GLÚTEN QUANDO usado para fazer o suco verde, por exemplo?
    qual o risco de alguém, sendo intolerante ao glúten, tomar diariamente suco verde com trigo germinado?

    • wilson abdo abugeber

      O grão do trigo germinado mantém o GLÚTEN QUANDO usado para fazer o suco verde, por exemplo?
      qual o risco de alguém, sendo intolerante ao glúten, tomar diariamente suco verde com trigo germinado?

    • leandro cumani

      Já vi alguns estudos científicos que dizem que o trigo germinado possui uma enzima que digere o gluten. O autor do site tem razão ao dizer que a germinação não elimina o gluten, mas parece estar enganado ao dizer que os malefícios persistem. Ao que parece, o gluten permanece com a germinação, mas seu efeito maléfico é suprimido por essa enzima que é ativada. Já dei pão essênio para uma pessoa celíaca e ela não teve reação alguma.
      De qualquer jeito, parece que falta ainda mais pesquisa sobre o assunto.

      • Flavio Passos

        Oi Leandro,

        Gentileza apontar os estudos que viu. Procurei e não localizei. Argumentos anedóticos como “uma vez dei um pão germinado para um celíaco e nada aconteceu” não ajudam muito. Se quer que o artigo seja corrigido precisamos de evidências mais concretas.

        Abraços!

        • Alana Gouveia

          Olá, boa tarde. Eu sofro de leaky gut syndrom com hipotireoidismo de Hashimoto e uma intolerância à frutose. Nos últimos 24 meses engordei aproximadamente 30kg sem muita diferenca na minha alimentacao. Já fui a alguns especialistas e a uma nutricionista, mas nenhum parece ter completa idéia da dimensao do meu problema, porque no fim das contas eu é quem acabo explicando as coisas. Eu moro na Alemanha e vi por acaso nas férias no Brasil um programa seu na Sony e vi que o senhor tem conhecimento da composicao quimica dos nutrientes e seus efeitos no metabolismo, um profissional que poderia salvar a minha situacao. Estou quase que entrando em desespero. O senhor também faz consultas? Eu também teria interesse em um retiro na Escandinávia, pois fica mais perto de onde moro. Espero muito receber uma resposta.

          Desde já, grata.

          Alana Stéphanie Gouveia

          • Alessandra Toledo

            Oi Alana, uma sugestão: se vc ainda não leu, leia o livro da Dra. Amy Myers chamado Doenças Autoimunes. Ela teve o mesmo problema que vc e desenvolveu um método para tratar a si e seus pacientes que detalha no livro. Ela tb tem um site em inglês que tem muita informação sobre o tema. Boa sorte e uma ótima saúde!

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